Operação na Terra Indígena Sararé aperta o cerco ao garimpo e expõe rede de apoio fora do território

A desintrusão na TI Sararé, em Mato Grosso, já soma prisões, destruição de estrutura ilegal e apreensão de combustível. Ao mesmo tempo, investigações mostram que o garimpo não se sustenta sozinho: ele depende de uma rede de abastecimento que funciona fora da terra indígena.

A operação federal na Terra Indígena Sararé entrou em abril com um efeito mais visível sobre a estrutura do garimpo ilegal. No balanço da primeira semana, o governo informou 126 ações, 67 detenções e prejuízo estimado em R$ 26 milhões à atividade criminosa. Nesse período, foram destruídos ou apreendidos materiais em 31 acampamentos, entre eles 76 motores, 40 geradores, 24 quilos de explosivos, 4 mil litros de diesel, nove escavadeiras e uma arma de fogo. A operação segue sem prazo definido.

Nos dados mais recentes, divulgados em 10 de abril, o governo passou a falar em duas semanas de incursões. Nesse novo recorte, o total apreendido ou inutilizado chegou a 80 quilos de explosivos, 20 mil litros de diesel e 4 mil litros de gasolina. A estratégia, segundo a coordenação da desintrusão, tem mirado especialmente a logística do garimpo, com foco em combustível e insumos sem os quais motores e geradores não funcionam.

A Sararé abriga cerca de 201 indígenas do povo Nambikwara, distribuídos em sete aldeias, em uma área de aproximadamente 67 mil hectares entre Conquista D’Oeste, Nova Lacerda e Vila Bela da Santíssima Trindade. Desse total, cerca de 4,2 mil hectares já foram impactados pelo garimpo ilegal, de acordo com dados citados pelo governo federal e pelo Ibama.

O que apareceu agora com mais nitidez é que o garimpo não depende só de quem está dentro da terra indígena. A operação começou a avançar também sobre a rede de apoio fora do território. A ANP interditou um posto em Cáceres por indícios de irregularidades na aquisição e na venda de combustível e retirou dois reservatórios com capacidade de 70 mil litros cada. Antes disso, outro posto, em Pontes e Lacerda, já havia sido autuado por movimentações consideradas atípicas e por funcionar sem autorização da agência.

Essa linha de investigação ganhou mais peso com a denúncia apresentada pelo MPF nesta semana. O órgão denunciou quatro pessoas acusadas de integrar uma rede de fornecimento contínuo de combustível para o garimpo ilegal na TI Sararé. Segundo o MPF, o grupo teria movimentado cerca de 5 milhões de litros de diesel entre setembro de 2023 e fevereiro de 2026, com valor superior a R$ 26 milhões. A denúncia é desdobramento da Operação Última Gota, iniciada em fevereiro.

Isso ajuda a entender por que operações de retirada, sozinhas, costumam não resolver tudo. A máquina que cava dentro da terra indígena depende de dinheiro, transporte, armazenamento e abastecimento do lado de fora. Quando essa engrenagem continua funcionando, o garimpo encontra caminho para voltar.

A pressão sobre a Sararé não começou agora. A Funai registra que a terra indígena é alvo de atividade garimpeira desde a década de 1990. Em 2026, a diferença é que o governo passou a tratar a área como frente prioritária de desintrusão, e os dados mais recentes mostram uma tentativa mais dura de cortar não só a extração, mas a estrutura que a sustenta. Resta saber se o Estado vai manter esse fôlego depois da fase mais visível da operação.

Por que a logística é parte da proteção territorial

A experiência da Sararé ajuda a compreender uma mudança importante no combate ao garimpo. A retirada de pessoas e máquinas é necessária, mas não basta quando o financiamento, o combustível e o transporte continuam disponíveis nos municípios do entorno. A investigação da cadeia precisa acompanhar notas fiscais, movimentações financeiras, rotas de caminhões, armazenamento e eventual participação de empresas que operam como fachada. Sem esse rastreamento, a operação corre o risco de produzir apenas uma interrupção temporária.

Também é preciso separar informação oficial de resultado definitivo. Números de prisões, apreensões e prejuízos estimados mostram a intensidade da resposta estatal, mas não medem sozinhos a recuperação do território. O indicador decisivo é saber se os invasores retornam, se novas áreas são abertas, se os rios continuam contaminados e se as comunidades conseguem circular com segurança. A Funai e os órgãos ambientais precisam manter monitoramento depois da fase ostensiva, com canais de denúncia e presença compatível com a extensão da terra indígena.

O que acompanhar daqui para frente

Há pelo menos cinco perguntas para acompanhar: a operação terá continuidade após as primeiras incursões? As denúncias contra os fornecedores de combustível resultarão em responsabilização judicial? Haverá atendimento para pessoas afetadas pela contaminação e pela violência? Os danos ambientais serão medidos e reparados com participação Nambikwara? E como o Estado evitará que a proteção dependa de uma única operação extraordinária?

Responder a essas perguntas exige transparência e respeito à autonomia indígena. O povo Nambikwara não deve aparecer apenas como destinatário de uma ação policial; suas lideranças precisam participar da definição das prioridades de proteção, recuperação ambiental e segurança. A desintrusão só cumpre sua finalidade quando devolve condições de vida e de decisão no território, e não apenas quando remove equipamentos de uma fotografia oficial.

Fontes: Ministério dos Povos Indígenas, balanço da primeira semana da desintrusão; Ministério dos Povos Indígenas, logística do garimpo e fiscalização de combustível; Funai, Ibama e forças de segurança em ação integrada.

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